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Foto de Thais Costa
Elipse Laranja Elipse Laranja
17/09/2026

“Currículo para quê, para quem e a favor de quem?”: coordenadora da Roda lança luz sobre a justiça curricular

Foto de Thais Costa

Quando pensamos em currículo escolar, imaginamos uma lista de conteúdos que precisam ser ensinados ao longo do ano. Porém, toda seleção pressupõe também um recorte: se alguns conhecimentos entram, quais são os que ficam de fora? Quais saberes ganham espaço na escola e quais são marginalizados? E quem participa dessas escolhas?

Essas perguntas estão no centro do debate proposto por Thais Almeida Costa, doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que atua como formadora e coordenadora pedagógica na Roda Educativa. Ela é autora, ao lado de Branca Jurema Ponce, do livro “Justiça curricular: conhecer, cuidar e conviver democraticamente”, publicado pela Editora Peirópolis.

A perspectiva da justiça curricular parte do entendimento de que o currículo não é neutro. Ao definir o que deve ser ensinado e quem pode participar dessas decisões, surge um debate profundo sobre educação, democracia e sociedade.

Precisamos nos perguntar se o currículo contribui para enfrentar desigualdades ou se acaba reproduzindo aquelas que já atravessam a sociedade.

Confira os principais trechos da conversa:

Roda Educativa: Para começar, o que é justiça curricular, afinal?

Thais Costa: Quando falamos de currículo, estamos falando de escolhas. Há um recorte sobre aquilo que deve ser ensinado, sobre os conhecimentos considerados relevantes e sobre aqueles que acabam ficando de fora. Essas escolhas também aparecem na organização dos tempos e espaços, nas formas de ensinar e avaliar e nas relações que se estabelecem na escola. Por isso, a justiça curricular interroga tanto os conhecimentos ensinados como as condições de acesso, aprendizagem e participação das e dos estudantes.

A justiça curricular parte justamente da necessidade de questionar essas escolhas e perguntar como o currículo pode contribuir para uma sociedade mais justa. O currículo vai reforçar as desigualdades existentes ou vai trabalhar no sentido de enfrentá-las?

Por isso, algumas perguntas são fundamentais: currículo para quê? Currículo para quem? Currículo a favor de quem? O currículo orienta políticas públicas, avaliações e práticas escolares. Existe, portanto, uma dimensão de poder muito forte nessas decisões.

Roda: Então, o currículo é também um espaço de disputa política?

Thais: Sim, podemos compreendê-lo como um espaço de disputas simbólicas, políticas, ideológicas, culturais e de poder.

A própria definição do conhecimento que será legitimado pela escola faz parte dessa disputa. A escola é uma instituição cultural e não está apartada da sociedade. Precisamos olhar para as marcas de uma sociedade atravessada por desigualdades de classe, pelo racismo, pelo patriarcado, pelo machismo, pelo autoritarismo e pelo colonialismo.

Quando determinados conhecimentos são apresentados como universais enquanto outros são silenciados, é preciso perguntar quem teve o poder de definir aquilo que é considerado conhecimento legítimo. A justiça curricular nos convida justamente a identificar esses silenciamentos, essas violências curriculares. Para a justiça curricular, não há justiça social sem justiça cognitiva. Isso significa enfrentar as hierarquias que desqualificam determinados conhecimentos e os sujeitos que os produzem. A escola precisa garantir o acesso ao patrimônio científico, artístico e filosófico e promover o diálogo com diferentes saberes, ampliando as possibilidades de compreender e transformar o mundo.

Roda: Você também critica uma lógica de responsabilização de professoras/es, gestoras/es e estudantes pelos problemas da educação pública. Por quê?

Thais: Porque não podemos responsabilizar a pessoa por uma exclusão que é produzida socialmente e também pelas próprias condições oferecidas às escolas.

A/o professora/or deixa de ser autora/or quando não tem plano de carreira, quando não há tempo para planejamento, quando não recebe remuneração e formação adequadas ou quando trabalha em uma escola sem materiais básicos.

Ao mesmo tempo, estamos vivendo uma época marcada por rankings, padronização, avaliações produzidas fora da escola, materiais apostilados e plataformas que cria o risco de reduzir a/o docente a quem simplesmente executa uma prescrição externa. Professoras e professores precisam ser reconhecidas/os como quem produz conhecimento e participa das decisões curriculares.

Roda: E o que se perde quando a qualidade da educação passa a ser pensada principalmente a partir de metas e resultados?

Thais: O resultado não pode definir sozinho aquilo que entendemos por educação de qualidade. A educação envolve a formação de pessoas capazes de compreender e transformar uma sociedade profundamente desigual. A escola também é um espaço de proteção e de garantia de direitos de crianças e adolescentes. É aí que a disputa em torno dela se torna tão intensa. Projetos de militarização das escolas, movimentos, como o Escola sem Partido, propostas de homeschooling e tentativas de retirar discussões de gênero dos currículos mostram que existe uma disputa sobre que experiências, conhecimentos e perspectivas podem circular no espaço escolar. Discutir currículo, nesse sentido, é também discutir democracia.

Roda: O livro propõe três dimensões inseparáveis da justiça curricular: conhecer, cuidar e conviver democraticamente. Como elas aparecem na prática?

Thais: No campo do conhecimento, estamos falando de garantir acesso a conhecimentos relevantes e, ao mesmo tempo, questionar quais saberes foram historicamente marginalizados e precisam ser reintegrados.

O cuidado está relacionado à garantia de uma vida digna. Envolve acolhimento e pertencimento, mas também alimentação, acessibilidade, proteção contra as violências e condições materiais para permanecer na escola e aprender. Não existe direito à aprendizagem sem considerar as condições nas quais as pessoas estão vivendo e aprendendo. Isso exige políticas públicas e articulação entre a educação e outros serviços de garantia de direitos.

E a convivência democrática pressupõe participação real. É criar condições para que a comunidade escolar possa deliberar coletivamente, realizar assembleias, participar de processos de avaliação.

Essas três dimensões não funcionam separadamente. Existem fronteiras muito porosas entre conhecer, cuidar e conviver. Uma escola comprometida com a justiça curricular precisa pensar essas dimensões de maneira articulada.

Roda: Para quem quer trabalhar com a perspectiva da justiça curricular, por onde começar?

Thais: O livro não traz respostas prontas porque acredito que o ponto de partida seja fazer perguntas. O que consideramos inegociável na educação? O que não podemos deixar de avaliar? Que conhecimentos estamos privilegiando? Quem está sendo ouvido? Quem está ficando de fora? E, principalmente, qual é o nosso projeto de sociedade?

Precisamos perguntar se queremos reproduzir um projeto meritocrático e excludente ou construir outra forma de organização social. É o projeto de sociedade que orientará, em última instância, o nosso projeto de currículo. Nesse sentido que o currículo é muito mais do que uma lista de conteúdos.

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