contraste contraste
instagram facebook linkedin youtube email
ioeb contato como apoiar
Foto de Juliana Ramos, uma mulher negra com tranças no cabelo que vai até a altura dos ombros. Ela está com os braços cruzados e sorrindo.
Elipse Laranja
19/11/2025

Projeto Jaê atravessa fronteiras e inspira novos municípios

Foto de Juliana Ramos, uma mulher negra com tranças no cabelo que vai até a altura dos ombros. Ela está com os braços cruzados e sorrindo.

Criado em 2021 pela Secretaria Municipal de Educação de Santa Bárbara d’Oeste (SP), o Projeto Jaê – Educação para Equidade nasceu com o propósito de transformar iniciativas isoladas em uma abordagem sistêmica de educação antirracista.

Desenvolvido em parceria com a Roda Educativa, o projeto mobilizou toda a rede de ensino – gestores, professores, famílias e estudantes – e deu origem ao Núcleo ERER (Educação para as Relações Étnico-Raciais), responsável por coordenar as ações de equidade na cidade.

Conversamos com Juliana Ramos Fernandes, coordenadora do Núcleo, sobre como essa importante iniciativa se tornou referência para municípios vizinhos a Santa Bárbara d’Oeste.

Roda Educativa: Você pode nos contar quais foram as consequências do Projeto Jaê para a cidade?

Juliana Ramos: A principal foi a criação do Núcleo ERER, que reúne profissionais de todas as etapas – da Educação Infantil à EJA. Participamos de formações, organizamos sequências didáticas e acompanhamos o cotidiano das escolas. Ainda não temos uma estrutura definitiva: os assessores pedagógicos acumulam funções e não recebem adicional por esse trabalho. Mas estamos lutando pela institucionalização do Núcleo.

Conheça também:
Glossário Comentado – Letramento Racial
Coletânea Jaê – Literaturas Negras
Sequência didática: Descobertas científicas de autoria negra – 4º ano
Revista Jaê
Revista Jaê – segunda edição

Foto de menina negra de perfil escrevendo em uma folha de papel que está sobre uma carteira escolar.

Roda: Santa Bárbara d’Oeste se tornou referência para outros municípios?

Juliana Ramos: Sim! Desde 2024, as redes de ensino têm respondido ao questionário sobre a implementação da Lei 10.639/03, e foi lançada a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ). Nesse processo, foram indicados agentes de governança, e eu tive a honra de ser indicada para atuar na jurisdição de Santa Bárbara d’Oeste, Americana e Nova Odessa.

Levo às demais secretarias o trabalho que desenvolvemos aqui, promovendo o diálogo e a construção conjunta de planos de ação para garantir a efetiva implementação da lei. Compartilho todo o aprendizado adquirido no município, realizando formações com técnicos das secretarias de educação e fortalecendo o compromisso com uma educação cada vez mais plural e representativa.

Roda: Além dos municípios da região, existem conexões com outras cidades?

Juliana Ramos: Sim. Em Natividade da Serra, realizamos um intercâmbio voltado à Educação Infantil, em parceria com a Maria Assunta, também integrante do Núcleo ERER. Avaliamos o acervo literário das escolas, observando quantos livros traziam autores e personagens negros ou indígenas — porque essa representatividade é fundamental desde cedo.

Roda: Juliana, você pode relembrar a história do Projeto Jaê?

Juliana Ramos: Tudo começou com uma inquietação da Tânia Mara, então secretária de Educação. Ela percebeu que as ações de equidade eram pontuais — como a sacola itinerante de livros afro-indígenas e a mostra cultural do Dia da Consciência Negra — e se perguntou: “E se eu sair da Secretaria, essas ações vão continuar?”

Essa reflexão deu origem ao Jaê, palavra que significa “nós dizemos, nós falamos”. A ideia era justamente essa: dar voz à equidade.

Roda: E como foi o início dessa transformação nas escolas?

Juliana Ramos: A chegada da Roda Educativa foi essencial. Eles partiram do que já existia, mas trouxeram algo fundamental: o diagnóstico. Até então, falávamos sobre equidade sem dados concretos. Não sabíamos, por exemplo, quantos alunos eram negros — e muitas famílias não declaravam a raça das crianças. Foi preciso formar as equipes sobre a importância da autodeclaração racial nas fichas escolares.

Roda: Havia diferença de aprendizado entre crianças negras e brancas?

Juliana Ramos: Sim, havia. Notamos que o nível de leitura das crianças negras era mais baixo. Apesar do discurso de que “todos são tratados iguais”, percebemos sutis desigualdades no cotidiano escolar. Algumas crianças negras tentavam se tornar invisíveis, sentando-se no fundo da sala; outras eram vistas como “alunos-problema”, quando, na verdade, o problema é estrutural. Lembro de uma fala do Mano Brown, que diz que ser invisível é se sentir ignorado pela sociedade.

O Jaê nos fez enxergar essas dores dentro da escola e entender que recompor a aprendizagem também é um ato de justiça racial.

Roda: Quais foram os principais aprendizados que você está levando para outros municípios?

Juliana Ramos: Os casos de racismo, antes do Jaê, eram tratados como “só bullying” — mas não eram. A partir das discussões promovidas pelo projeto, passamos a aprofundar o letramento racial e o entendimento do racismo estrutural dentro da rede. Criamos materiais de apoio aos professores, como o Glossário para o Letramento Racial, que ajuda a qualificar o diálogo e a prática pedagógica. E estamos acompanhamos de perto dados de desempenho por raça, gênero e renda, para garantir um olhar contínuo sobre a equidade.

conteúdos relacionados

Este site usa cookies para melhorar sua experiência.