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Foto de mãos segurando uma prova. No fundo desfocado, há outras alunas e alunos | Crédito: arrowsmith2 - Adobe Stock
Elipse Laranja Elipse Laranja
08/07/2026

“Avaliação externa precisa ser usada com responsabilidade política”, diz coordenadora pedagógica da Roda

Foto de mãos segurando uma prova. No fundo desfocado, há outras alunas e alunos | Crédito: arrowsmith2 - Adobe Stock

A avaliação externa é uma ferramenta potente de gestão pedagógica, mas seu uso exige cuidado, contextualização e responsabilidade política. Sem esses cuidados, o que deveria apoiar o ensino pode acabar por distorcê-lo ou, pior, por estigmatizar escolas e estudantes.

É o que alerta a coordenadora pedagógica na Roda Educativa Priscila de Giovani.

Em entrevista para o blog, a educadora dá orientações sobre o uso de provas externas, aplicadas por instituições ou órgãos externos às escolas, como as avaliações da alfabetização realizadas pelos sistemas estaduais em articulação com o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Ela também conta a experiência no uso dos dados no contexto do Projeto Trilhos da Alfabetização, iniciativa que faz parte do Programa de Educação e Saúde da Fundação Vale e conta com a parceria técnica da Roda desde 2022.

No projeto, os resultados são organizados por territórios, não por escolas ou estudantes individualmente. Essa escolha reflete uma concepção clara: a avaliação externa não foi feita para diagnosticar estudantes ou classificar escolas, mas para identificar padrões que orientem ações coletivas. Confundir esses diferentes usos dos dados, tratando dados sistêmicos como se fossem diagnósticos individuais é um dos equívocos mais recorrentes, segundo Priscila.

O risco do ranqueamento é um tema central na conversa. Quando os resultados circulam sem mediação qualificada, geram hierarquias que pouco ajudam a compreender o problema e ainda podem estigmatizar escolas que já enfrentam condições mais difíceis. A proposta do uso dos dados é outra: cruzar informações, aprofundar análises e transformar o número em reflexão coletiva, para que a avaliação cumpra seu real potencial formativo.

Confira os principais trechos da entrevista, a seguir:

Roda Educativa: Por que é preciso ter cuidado com o uso dos resultados de avaliações externas?

Priscila de Giovani: Porque o uso equivocado pode distorcer o ensino ou, pior, estigmatizar escolas e estudantes.

Antes de qualquer análise, é preciso perguntar: para que usamos esses dados? O que queremos compreender com eles? Sem essa clareza, a avaliação perde o seu sentido formativo.

Roda: No projeto Trilhos da Alfabetização, como os dados são apresentados?

Priscila: Optamos por apresentar os resultados organizados por territórios. Essa escolha não é casual, ela reflete uma compreensão sobre a natureza e os objetivos da avaliação. Nosso uso não foi construído para diagnosticar escolas ou crianças individualmente, mas para identificar padrões gerais que permitam pensar como ações coletivas podem incidir na aprendizagem das/os estudantes. Para olhar individualmente, existem outros instrumentos: as provas internas de cada município e as avaliações realizadas pelas/os professores. Cada instrumento tem seu lugar e sua função.

Roda: Quais são os limites que precisam ser considerados ao interpretar esses resultados?

Priscila: Há variáveis que interferem nos resultados e que precisam ser levadas em conta: condições de aplicação, tempo de duração da prova, familiaridade das/dos estudantes com os conteúdos e características específicas das turmas – número de alunos, frequência, entre outros fatores). Quando ignoramos esses limites, corremos o risco de responsabilizar escolas por aquilo que a prova não é capaz de explicar.

Roda: Como o projeto lida com o risco de ranqueamento?

Priscila: O ranqueamento tende a estimular competição, não colaboração — e pode criar constrangimento no lugar de oferecer apoio pedagógico. No projeto, optamos pelo cruzamento dos dados das escolas com menores resultados com outras avaliações, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e o Indicador Criança Alfabetizada (ICA). São poucas as escolas que permanecem com resultados abaixo do esperado em diferentes instrumentos, e essas demandam análise mais aprofundada. Esse movimento desloca o foco do julgamento para a compreensão: como a equipe entende o cenário de aprendizagem das/dos estudantes? Que condições precisam ser fortalecidas?

Roda: Quando os dados são entregues por escola, quais cuidados são necessários?

Priscila: É imprescindível que isso venha acompanhado de uma discussão prévia e qualificada: o que será feito com esses dados? Como serão tratados internamente? Quais cuidados serão adotados? Essa não é uma exigência burocrática, é uma condição para evitar usos punitivos e garantir o uso formativo.

Roda: Há riscos também em premiações atreladas ao desempenho?

Priscila: Sim. Prêmios vinculados a resultados podem induzir práticas voltadas exclusivamente para a prova, estreitando o currículo e comprometendo a formação integral das/dos estudantes. Há também uma dimensão política que não pode ser ignorada: a divulgação de resultados, especialmente em anos eleitorais, levanta a pergunta sobre que narrativas se produzem sobre a função dessa avaliação serve, para a sociedade e para as equipes docentes.

Roda: Para encerrar, qual é a principal contribuição da avaliação externa para a aprendizagem dos estudantes?

Priscila: A avaliação externa é um recurso valioso quando utilizada com rigor, responsabilidade e perspectiva sistêmica. Sabemos que ela não é neutra: regula o sistema e, na prática, influencia o currículo. Não se trata apenas de treinar estudantes para responder questões, mas de assegurar coerência entre os princípios que orientam a elaboração da prova e as práticas de ensino.

O potencial formativo da avaliação depende de como os dados são interpretados, compartilhados e transformados em ações coletivas.

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