Voluntariado corporativo com impactos positivos mensuráveis na comunidade. Foi isso que a implantação do Programa Myra Juntos pela Leitura na FTD Educação alcançou já no seu primeiro ano de funcionamento (2024). Os bons resultados levaram a empresa a expandir sua atuação no Myra, envolvendo mais escolas, mais voluntários e mais estudantes.
Gerenciado pela Roda Educativa, o programa promove o desenvolvimento leitor de estudantes de escolas públicas, por meio de sessões de leitura em duplas, nas quais voluntários atuam como tutores, ajudando crianças de 9 a 11 anos a avançar nas suas habilidades de leitura.
Desde 2016, quando foi trazido da Espanha para o Brasil, o programa já vem funcionando em escolas e organizações sociais que encaminham estudantes com necessidade desse tipo de apoio e/ou oferecem seus espaços para as sessões, mas no Ponto Myra FTD, a empresa cede seus funcionários – que recebem formação em mediação de leitura com a equipe da Roda – para realizar as sessões.
“Ter o programa Myra na FTD nos permite encontrar o ‘fit’ entre o colaborador que gostaria de ser voluntário e o objetivo maior do programa de trazer as crianças pro mundo da literatura”, afirma Vivian Malzone, analista de Responsabilidade Social na FTD e gestora do Ponto Myra. “Nos permite também trazer um dos pilares de ESG, que é essa possibilidade de ter relacionamento com a comunidade do entorno das instalações da FTD.“
Inicialmente, a parceria se deu com o CEDO Achiropita, organização localizada no bairro da Bela Vista, onde fica a sede da editora. Funcionários de diferentes áreas da empresa vão caminhando até lá para encontrar suas duplas – estudantes do 4º ao 6º ano que enfrentam alguma dificuldade nas suas aprendizagens relacionadas à leitura.
“Eu percebo que, pra ela, isso foi um grande incentivo, a leitura. Eu sempre gostei de ler, sempre incentivei. Mas ela não engajava porque não conseguia ler, não gostava. E aí, depois do projeto, ela começou a ler. Começou a se interessar por livros. Ela leva livros pra casa. Então, assim, às vezes, ela nem está nas telas, mas está lendo. Então, eu percebi que ela teve uma grande evolução com o projeto”, afirmou Natasha Neves Fernandes, mãe da estudante Valentina Fernandes Guimarães, que participou do Myra no ano passado.
A própria Valentina também comemora a sua evolução: “Quando a gente lia antes do projeto, eu não me interessava, ficava com sono, entediada. Mas agora eu sei os livros que gosto de ler, consigo falar, interpretar o texto, imaginar o texto na minha cabeça e eu consigo ler melhor.”
E não foi só a Valentina que aprendeu com o Myra, a sua “dupla”, a voluntária Carolina Held (na foto ao lado da menina), da área de compliance da FTD, contou sobre a sua experiência: “Eu achei que eu ia ensinar, mas estou mais aprendendo do que ensinando, está sendo assim fantástico, porque estou conseguindo entrar no mundo da leitura com ela, a gente criou um vínculo. Está sendo muito especial para nós duas essa experiência”.
Resultados das avaliações
Os resultados das avaliações feitas pelo Myra apontam que Valentina não é um caso isolado de evolução. O programa afere as habilidades leitoras das/dos estudantes participantes no início e no final de cada ano e, de acordo com essas aferições, estudantes que participaram do Myra tiveram uma evolução oito vezes maior (3,4 pontos na média da prova) do que os estudantes que não participaram do programa (0,4 ponto na média da prova). A prova foi desenvolvida para captar o repertório e interesse pela leitura, posicionamento crítico sobre o texto, capacidade de interpretar textos e utilização de estratégias no processo de leitura.
“Considerando que esses/essas estudantes estavam defasados em relação aos seus colegas de turma na escola, é muito importante que eles tenham conseguido avançar mais rápido para poderem acompanhar a turma, isso impacta não só o aprendizado, como a auto-estima dessas crianças, sem falar no vínculo que eles estabelecem com a leitura, que é algo que vai ajudá-los não só na escola, como na vida”, afirma a coordenadora do programa na Roda, Gisele Goller.
Na avaliação de leitura em voz alta, que mede fluência leitora (se o estudante lê de forma fluída, respeitando pontuação e entonação) e a compreensão leitora1 (se o estudante compreende o que lê em voz alta) e os resultados também indicaram avanços. Estudantes que estavam no Nível 2 de fluência leitora no início do ano progrediram para o Nível 3; e quem tinha compreensão leitora Nível 2 avançou para o 3.
Os formulários respondidos pelas crianças sobre seus hábitos leitores também trazem dados positivos: 73% dos alunos afirmaram gostar de ler, 80% conseguiram fazer indicações de livros, personagens e temas de sua preferência, e muitos relataram ter adquirido o hábito de retirar livros na biblioteca ou sala de leitura.
A coordenadora do CEDO, Karina Freitas, conta por que aceitou e se engajou na proposta do Myra quando recebeu o convite no ano passado: “A gente vê que ele é muito bem cuidado, tem um objetivo, não é só ler por ler. A gente vê que pode agregar na vida dessas crianças uma oportunidade, um novo conhecimento. O Myra entra nessa função não só de correr atrás desse prejuízo, mas de agregar também para a vida deles, porque a leitura é isso, é um gosto que a gente toma. Acho que foi isso que fez com que a gente abraçasse o projeto também.”
O sucesso do programa se deve à metodologia estruturada que inclui formação contínua de voluntários, materiais pedagógicos especializados, acompanhamento semanal das sessões e avaliações periódicas do desenvolvimento dos estudantes.
Os voluntários participaram de encontros formativos ao longo do ano, receberam materiais de apoio por meio dos Cadernos Myra (disponíveis para download gratuito aqui no site) e do Padlet Myra e contaram com suporte individual da coordenação do programa.
‘Retratos da Leitura’
A experiência do Myra demonstra a potência da leitura realizada com uma pessoa com quem o/a estudante desenvolve um vínculo pessoal e mostra que é possível avançar nos dados apontados pela 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, segundo a qual, em 2024, houve uma queda no percentual de leitores de 47%, em relação às edições anteriores da pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Fundação Itaú.
Em 2024, o Ponto Myra FTD contou com 16 voluntários, 13 estudantes, 13 famílias impactadas e realizou aproximadamente 250 sessões de leitura no CEDO Achiropita. Em 2025, o programa firmou parceria com outras duas escolas (E.E. Presidente Roosevelt e EMEF Celso Leite) e ampliou seu alcance para 38 duplas. Além desses 38 voluntários, ainda há três que atuam como substitutos dos seus colegas nos casos em que não podem comparecer, tudo para não deixar as/os estudantes sem a sua sessão.
1 Fluência leitora:
Nível 1 (menos avançado): Lê silabando lentamente, tropeça e troca algumas palavras, não considera a pontuação.
Nível 2: Lê de forma ‘corrida’, tropeça e troca algumas palavras, não considera a pontuação.
Nível 3: Lê pausadamente, respeitando parcialmente a pontuação.
Nível 4 (mais avançado): Lê em bom ritmo, respeitando a pontuação.
Compreensão leitora:
Nível 1 (menos avançado): Não conversou sobre a fábula
Nível 2: Recupera apenas partes isoladas do texto, não consegue reconstruir em linhas gerais o enredo.
Nível 3: Recupera as partes principais do texto, reconstruindo em linhas gerais o enredo, mas não consegue perceber sutilezas, nem recuperar a moral da história.
Nível 4 (mais avançado): Recupera integralmente o enredo, percebendo sutilezas e identificando a moral da história.