Desde a pandemia, a proposta de recomposição de aprendizagens foi incorporada à política educacional no Brasil, mas na prática ainda há muita dúvida por parte das equipes escolares sobre como oferecer, a estudantes que não consolidaram aprendizagens no tempo esperado, as condições de que precisam para aprender e avançar com sucesso nos seus estudos.
Foi pensando nessa demanda que UNICEF e Roda Educativa desenvolveram o curso on-line “Estratégias permanentes e contínuas de recomposição de aprendizagens”. Embora seja voltado para gestoras/es, coordenadoras/es pedagógicas/os e professoras/es dos 2.277 municípios que participam do Selo UNICEF – iniciativa que propõe compromissos da gestão municipal com melhorias na educação, dentre outras áreas -, o curso está disponível no AVA UNICEF de forma gratuita a quem se interessar.
A proposta é traçar caminhos para acompanhar a/o estudante ao longo de todo o ano e lhe dar o apoio necessário ao diagnosticar a necessidade de recompor aprendizagens estruturantes, ou seja, aquelas que são importantes para ela ou ele seguir aprendendo, sem esperar o final dos ciclos letivos para fazer o encaminhamento para a “recuperação” ou eventualmente reprovar a/o estudante.
“Recompor significa agir assim que uma lacuna é percebida, ao longo de todo o ano letivo, sem esperar o fechamento de um bimestre, de um semestre ou do ano letivo para reconhecer que um estudante não aprendeu determinado conteúdo”, explicou a oficial de Educação do UNICEF, Erondina Barbosa, em entrevista ao Blog da Roda.
Conexão com a realidade dos municípios
Desde o lançamento, , 17.343 pessoas de 847 municípios já concluíram o curso. A articuladora do Selo UNICEF na Secretaria de Educação de Bagre, na Ilha do Marajó (PA), Andresa Novaes, é uma delas.
“É um curso muito importante. Fala a nossa linguagem, traz os nossos anseios. Eu vi lá os mesmos problemas que alguns professores compartilhavam aqui. Ele traz o trabalho em equipe, a interdisciplinaridade do trabalho, que não precisa ser só de língua portuguesa. Eu amei. E todas as pessoas com quem eu conversei me falaram a mesma coisa. É a nossa realidade”, afirma Andresa, que se orgulha de ter ajudado a mobilizar 50 profissionais do município a fazerem o curso, superando com folga a meta de alcançar 30% das 58 escolas atendidas.
Também de Bagre, a professora Izandra Pessoa Pinheiro, que leciona História e Ensino Religioso na escola ribeirinha Nelson Gomes de Souza, fez o curso e reconheceu situações de estudantes que chegam à sua sala depois de terem sido reprovados sucessivamente. Segundo Izandra, os atrasos gerados pela pandemia muitas vezes são usados ainda como “desculpa” para a reprovação.
“Aí o aluno se sente oprimido, porque não consegue fazer a meta que o professor quer e vai ficar repetindo de ano. Tem que ter conversa e acolhimento”, defende a professora, que fez o curso ao longo de duas semanas, estudando um pouco toda noite.
“Eu mudei completamente quando comecei a estudar [Educação do Campo, em Altamira], joguei meu plano de aula fora porque estava na mesmice que às vezes a gente só se dá conta quando alguém fala. O curso do UNICEF veio confirmar o que eu pensava. Acho que o diretor e o coordenador também têm que fazer.”
O déficit de aprendizagem no Brasil é anterior à pandemia, mas foi nesse período, quando o país ficou entre os que mais tempo passaram sem aulas presenciais, que o cenário se agravou e passou a ser reconhecido como problema a ser enfrentado. A suspensão das aulas e a indicação do continuum curricular, obrigaram as redes a repensar suas estratégias, evidenciando que a reprovação, usada no Brasil há décadas como estratégia pedagógica, parte de uma premissa falsa: a de que repetir o ano garante mais aprendizagem.
Em Barra do Rocha, município do interior da Bahia, a mobilizadora do Selo UNICEF, Iracema Oliveira, também destacou o fato de o curso refletir o que vive no dia a dia. “O curso tem situações reais para analisar, traz estratégias permanentes e contínuas de recomposição das aprendizagens, bem pensadas, e que contribuem para apoiar decisões da equipe de gestores e professores no cotidiano da escola”, disse Iracema. “Até disponibiliza um guia pra implementação da recomposição das aprendizagens.”
Trajetórias de Sucesso Escolar
O curso se soma a uma série de ações feitas no contexto da parceria entre UNICEF e Roda Educativa, iniciada em 2019, por meio da estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar (TSE). A TSE trabalha com a recomposição de aprendizagens desde então, buscando romper o “ciclo do fracasso escolar”, conforme explica a oficial do UNICEF, Erondina Barbosa.
“O ciclo começa com meninos e meninas sendo reprovados. Quando são reprovados mais de uma vez, ficam em distorção idade-série. Muitas vezes abandonam a escola. Depois voltam para a escola e seguem nesse ciclo. Voltam e são reprovados novamente. Continuam em distorção e abandonam. É por isso que a gente chama de ciclo de fracasso escolar.”
Erondina lembra que o ciclo atinge de forma desproporcional e desigual meninos e meninas do Norte e do Nordeste, estudantes negros, indígenas, quilombolas, com deficiência, de zonas rurais e de periferias.
“Esses meninos e meninas sofreram múltiplas reprovações, estão em atraso escolar. O que a gente faz? A gente faz um currículo diferente, que permita a eles e elas seguir aprendendo junto aos seus pares etários. Esse, para mim, é um conceito genuíno de recomposição das aprendizagens. Que é fazer adequações curriculares, fazer priorizações curriculares para que esses meninos e meninas aprendam e sigam aprendendo junto aos seus pares etários”, afirma Erondina.
Por isso, o UNICEF hoje trabalha com a ideia de uma trajetória escolar regular e segura, fazendo convergir as estratégias da TSE e do programa Educação que Protege, em um reconhecimento de que estudantes mais reprovados estão na sua maioria em situação de maior vulnerabilidade, sendo duplamente penalizados.
Sobre o curso
Com duração de 40 horas, o curso “Estratégias permanentes e contínuas de recomposição de aprendizagens” é autoformativo, podendo ser feito conforme a disponibilidade da/do cursista.
Elaborado a partir dos guias do Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens, do MEC, entre outras referências, ele está estruturado em quatro módulos: A potência da recomposição das aprendizagens para o sucesso escolar; Ler e escrever ao longo da trajetória escolar; Aprender matemática para avançar; e Acompanhamento próximo e contínuo para trajetórias de sucesso escolar.