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Ilustração de duas meninas negras montadas sobre um passarinho em tamanho grande, maior que elas, que está sore um galho de uma planta.
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29/01/2026

Escolha de livros infantis passa por reflexão sobre presenças negras e indígenas

Ilustração de duas meninas negras montadas sobre um passarinho em tamanho grande, maior que elas, que está sore um galho de uma planta.

Por Cris Marques

São muitos os critérios a serem considerados quando escolhemos um livro para ler para as crianças. Para além da qualidade do texto e de outras características da obra, como as ilustrações e o projeto gráfico, é preciso observar se existem e como estão retratadas presenças negras e indígenas. Qual lugar ocupam na história? Elas têm voz? Como são representadas? Neste texto, nos apoiamos nos conhecimentos e na experiência da educadora social no Instituto iungo e pesquisadora das infâncias, da leitura e da literatura, Márcia Licá, para compreender como realizar boas escolhas de livros infantis.

A especialista, que fez uma palestra sobre o assunto durante a transmissão on-line com o tema ”Presenças Negras e Indígenas nas Leituras da Infância”, e conversou com a equipe do Blog da Roda defendeu que a literatura tem um papel essencial na educação antirracista.

“Isso pode parecer utopia. Mas é justamente aí que existe a força da ficção: ela é poderosa, sobretudo na primeira infância, que é o nosso começo de vida.”

As crianças negras e indígenas sofrem, sim, os impactos do racismo antes mesmo de nascer, ainda no ventre de suas mães, e esse processo só se prolonga ao longo da vida, afirma Márcia, com base na pesquisa de Jussara Santos no livro ”Democratização do Colo”. Já do outro lado, em uma sociedade estruturalmente racista, as crianças brancas também aprendem – e muitas vezes reproduzem – práticas racistas desde muito cedo, o que também vai se prolongando, de maneira ampla, nesse “efeito cascata”.

“Quem trabalha com literatura e leitura sabe que, sozinha ou sozinho, não consegue resolver essas questões. Também vai ter gente de algumas vertentes literárias que vai, inclusive, defender que não é papel da literatura abordar temáticas de cunho social, que o mais importante é a arte literária. Mas o ponto é justamente esse! A arte literária se baseia em todos os campos dos dilemas humanos. Quer prova maior dessa potência do que ver um bebê negro ou indígena abraçando um livro em que se reconhece, e em que as histórias tratam de dilemas que ele já vive no presente? Esse gesto, tão singelo, já anuncia revolução. Porque uma criança que cresce nesse processo se mune de argumentos, de proteção e de afetividade. Ela se fortalece emocionalmente para enfrentar o racismo que virá, e ganha condições de organizar esse enfrentamento, as palavras e até a postura diante da violência. Isso, para mim, é profundamente revolucionário”, enfatiza Márcia.

Mas como identificar, na prática, os estereótipos nos livros?

Márcia Licá levanta algumas questões importantes para considerarmos na hora de escolher uma obra infantil e livros infantojuvenis, pensando na formação leitora de crianças e jovens. As indagações rompem com a associação de povos indígenas a uma única cultura, tempo histórico ou modo de vida; a representação de pessoas negras sempre em papéis secundários ou de sofrimento; e a atribuição de comportamentos, capacidades ou valores a um grupo inteiro.

  • Em qual contexto o personagem é descrito socialmente?
  • Quem é o feio não declarado?
  • Para uma criança negra que escuta a história, o que chega primeiro?
  • Quais concepções são explicitamente reforçadas no texto?

Decolonizando para romper as lógicas coloniais de poder, saber e ser

A palavra decolonizar, que até parece um erro de ortografia, versa sobre a ideia de retirada, desfazimento ou revisão da colonização.

“O racismo, na minha visão, é um rastro radical e cruel da colonização. Chegamos a um ponto em que se torna urgente construir narrativas para contrariar essa lógica estruturante, que concebe corpos e mentes, e chega ao extremo de definir quem vive e quem morre. Conceitualmente, dialogo com autores como Frantz Fanon, Ngũgĩ wa Thiong’o e Walter Mignolo, que dedicaram pesquisas fundamentais para pensarmos com respaldo. A partir deles, avanço para o campo da educação e, especificamente, da literatura.”

Escrever decolonizando, no gerúndio, reafirma que se trata de um processo em movimento: não é algo acabado, mas um caminho contínuo de transformação. “É reconhecer que ainda carregamos – e diria até que vivemos – a colonialidade. Ao mesmo tempo, muita gente, em diferentes campos, se engaja em desfazê-la, inventando outras formas de ser, viver e criar.”

Materiais organizados pela pesquisadora para você saber mais:

Indicações literárias para decolonizar as experiências estéticas literárias

  • A pescaria do curumim e outros poemas indígenas, Tiago Hakiy e Taísa Borges (ilustrações)
  • Taynôh – Mĩtsi Dzahu na Watebremi Amã Iwahú (O menino que tinha cem anos), Aline Rochedo Pachamama (Churiah Puri)
  • O pássaro encantado, Eliane Potiguara e Aline Abreu (ilustrações)
  • A boca da noite, Cristino Wapichana e Graça Lima (ilustrações)
  • Os olhos do jaguar, Yaguarê Yamã e Rosinha (ilustrações)
  • O quintal das irmãs, Waldete Tristão e Rodrigo Andrade (ilustrações)
  • Fevereiro, Carol Fernandes
  • Chupim, Itamar Vieira Junior e Manuela Navas (pinturas)
  • Ashanti: nossa pretinha, Taís Espírito Santo e Cau Lupis (ilustrações)

Referências teóricas e bibliográficas sobre presenças negras e indígenas na educação, na infância e na literatura

  • Descolonizando metodologias: pesquisa e povos indígenas, Linda Tuhiwai Smith
  • Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil, Graça Graúna
  • O caráter educativo do movimento indígena brasileiro (1970–1990), Daniel Munduruku
  • A temática da cultura africana e afro-brasileira na literatura para crianças e jovens, Eliane Debus
  • Sociologia da Infância, William A. Corsaro
  • Literatura e Educação, Cristiane Tavares e Telma Weisz (orgs.)
  • Racismo estético: decolonizando mentes e práticas educativas, Seu João Xavier
  • A terra dá, a terra quer, Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo)
  • Infâncias negras: vivências e lutas por uma vida justa, Nilma Lino Gomes e Marlène de Araújo (orgs.)
  • Democratização do colo: educação antirracista para e com bebês e crianças pequenas, Jussara Santos (com prefácio de Eliane Cavalleiro)
  • Infâncias e leituras: presenças negras e indígenas na literatura infantil, Márcia Licá (org.), Amanda Luz, Carina Pataxó, Juliana Piauí, Magno Rodrigues Faria, Sonia Rosa e Tiago Hakiy

A live “Entoar palavras, histórias e territórios: Presenças Negras e Indígenas nas Leituras da Infância, que contou com a fala de Márcia Licá, foi realizada no contexto do projeto Pequenos Leitores – iniciativa da FTD Educação e da Roda Educativa que ao longo de 13 anos (2012-2025) se consolidou como uma das principais ações de formação leitora na primeira infância no Estado de São Paulo.

Acompanhe abaixo a gravação:

Ilustração de Rodrigo Andrade (cedida por ele para a Roda) feita para o livro “O quintal das irmãs”, da editora Pequena Zahar

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