O Projeto Rotas e Redes Literárias desenvolveu uma proposta artística com as/os alunas/os de 8º ano que não só mobilizou saberes e ampliou o repertório da turma, como resultou em uma exposição no Centro Cultural local que emocionou toda a comunidade.
Ao longo de 2024, uma turma de 15 adolescentes, entre 13 e 14 anos, que hoje já frequenta o 9º ano, da EE Daura de Carvalho Neto, que fica em Antônio Pereira, um pequeno distrito de Ouro Preto/MG, realizou quatro oficinas de lambe-lambe, forma de arte urbana que produz pôsteres de tamanhos variados que são colados, geralmente com cola caseira ou cola branca, em espaços públicos, como muros, postes, paredes e tapumes de construção. A ação reforça o objetivo da iniciativa da Fundação Vale com parceria da Roda Educativa (antiga Comunidade Educativa CEDAC) e a Prefeitura e a Superintendência Regional de Ensino locais, que é a promoção do direito à leitura e à literatura nas escolas e espaços públicos e comunitários do território. Nessa ação, as/os estudantes não só puderam ampliar seu repertório e frequentar ambientes culturais do território que sequer conheciam como puderam se reconhecer como produtores de conhecimento.
As oficinas eram realizadas de forma presencial na própria escola e no Centro Cultural Antônio Pereira e conduzidas pela formadora da Roda Juliana Piauí, que explicou para o blog da Roda a razão da escolha pelos lambe-lambes.
“Os lambe-lambes são um tipo de expressão artística que provoca reflexões nas pessoas que entram em contato com essa linguagem, por meio de mensagens e ideias construídas, individual e coletivamente. Eles criam um tipo de estética visual nos espaços, como no caso do Centro Cultural, que busca acolher e preservar a memória local. Foi ainda uma maneira potente do grupo de adolescentes dar vazão aos seus pensamentos, sentimentos e críticas sociais, além de tornar pública a poética de importantes autores, como Sérgio Vaz, Carolina Maria de Jesus, Mel Duarte, Jô Freitas, Ricardo Aleixo, entre outros”, destaca Juliana.
Ela conta que a 1ª oficina foi para conhecer o grupo e para iniciar o contato com poemas de Sérgio Vaz (leitura, declamação e biografia do autor), depois eles conheceram o Centro Cultural Antônio Pereira e fizeram jogos teatrais; leitura de poemas; exercício de escrita criativa e conheceram ações culturais de poesia, como slam e sarau.
Já em agosto, o grupo se aproximou dos cartazes poéticos e começou a colocar a “mão na massa”. Elas/es também puderam apreciar a exposição da estudante Ana Júlia, que não era sobre cartazes poéticos, mas já estava no Centro Cultural. “Isso ajudou bastante na reflexão sobre o sentido de uma exposição: O que é? Qual o seu sentido? Que lugar o público ocupa na visita e interação com uma obra de arte? Assim a turma pôde entender melhor que viveriam algo parecido”, conta Juliana.
Na última oficina presencial, foi a hora de continuar essa produção, revisar, selecionar os lambe-lambes e começar a planejar os primeiros passos da Exposição.
Para o professor da EE Profa Daura de Carvalho Neto Lucas Figueiredo dos Anjos, acompanhar as/os alunas/os nas oficinas foi interessante porque a experiência tirou da “zona de conforto” tanto as/os estudantes como ele, mas ao longo do processo todas/os foram se desenvolvendo. “Os estudantes tiveram uma oportunidade de se expressar de forma artística ‘fora’ do ambiente escolar em uma proposta que valorizou o que eles produziram, sendo assim vejo como um grande incentivo. Ao ver os cartazes expostos, me recordei do processo e senti a satisfação do desfecho.”
Na véspera da abertura da exposição, o grupo se envolveu na etapa final da da preparação do evento, com a colagem dos cartazes no Centro Cultural, além da organização do espaço e dos materiais para as ações previstas para os dias seguintes. E, enfim, nos dias 25 e 26 de fevereiro de 2025, aconteceu oficialmente a “Abertura da Exposição dos Cartazes Poéticos” e a participação das/dos estudantes no lançamento da publicação sobre o processo de construção do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura, Bibliotecas e Oralidade (PMLLLBO), construído junto com a sociedade civil, e que foi instituído pela lei nº 1.501, em 16 de setembro de 2024.
Para a diretora do Centro Cultural, Marleth Deusdedith, a ação foi recebida com muita alegria, gratidão e entusiasmo. “Acompanhar o processo foi muito enriquecedor, porque ali nós tivemos um momento de interação entre as crianças, adolescentes, escolas, Centro Cultural e comunidade. Acho que foi um momento mágico, um momento nostálgico, em que tivemos a participação das crianças da comunidade, daqueles alunos que muitas vezes a gente olhava para eles e achava que não teriam coragem, por causa da timidez. Eu espero que essas oportunidades aconteçam novamente aqui dentro da nossa comunidade e receber todo esse projeto foi muito grandioso, foi muito ganho para dentro de uma comunidade tão carente de cultura, de projetos culturais”, afirma.
Satisfeita com o processo e o resultado do trabalho, Juliana destaca o ganhos para toda a turma (cada uma/um desses jovens):
- Maior confiança em si mesmas/os (autoestima);
- Melhora na interação entre as/os estudantes (escuta/fala), contribuindo com relações de maior respeito e acolhimento entre elas/eles;
- Ampliação do repertório cultural e poético;
- Manifestação de suas próprias ideias, pensamentos, sentimentos e emoções, por meio da arte dos cartazes poéticos (lambe-lambes).



